
Não posso me considerar alguém que tenha seguido as normas de comportamento consideradas normais na nossa sociedade. Lembro-me de ter sido cobrada pelos amigos e minha própria família, quando decidiria me casar, ter filhos, etc. Ouvia os argumentos e explicações lógicas para o que eles acreditavam ser a forma correta de “crescer” e me tornar mulher, como alguém que é obrigado a assistir filme de segunda categoria. Até porque a maioria não poderia ser considera nem crescida, nem feliz.
É incrível como as pessoas têm a tendência de cometer erros, embora aceitos como necessários, e apesar disso, manter-se fiel a tradição. Quantos não foram os filhos, frutos de relações doentes que nunca foram rompidas, que sobrevivendo a essa atmosfera infeliz, acabaram por repetir os passos e erros de seus pais?
Será que é tão difícil aceitar o fato que nossa infância não foi tão esplendida assim? Será que é pecado mortal se comprometer a ir além daquilo que nos foi ensinado? Será que precisamos viver nossos relacionamentos dentro desses padrões retrógrados?
Não me parece absurdo considerar o casamento como instituição falida. São raros os casos onde se pode dizer que os anos não destruíram a relação amorosa. E me parece tolo esperar que a passagem do tempo não cause um efeito cada vez mais nocivo.
No passado, uma mulher se casava com mais ou menos 20 anos. A vida se passava num ritmo mais lento, as regras eram mais claras, seus horizontes mais estreitos. Na verdade, não se esperava muito além de criar os filhos e ajudar o marido a atingir suas metas. Tinha-se tempo para se relacionar, partilhar experiências e sentimentos e com sorte até crescer junto.
Hoje, tudo é muito mais veloz e complicado. As expectativas de sucesso englobam muitas outras opções. E o mais cruel é que se corre, corre muito. E nessa corrida abrimos mãos das coisas básicas para manter uma relação saudável e feliz.
Fazer um contrato a longo prazo nesse clima, jurar amor eterno diante de Deus e dos homens... Haja coragem e insensatez. Ninguém faz um contrato para a eternidade sem conhecer em pormenores o que está contratando. Quem pode dizer, nos tempos atuais, que realmente se conhece, sabe o que necessita, aonde quer chegar, etc? Quem espera crescer harmonicamente com outra pessoa, sempre mantendo o equilíbrio e a capacidade de compartilhar? Aqueles que realmente estão comprometidos com uma relação, tendem a fugir das garras do casamento. Não porque não acreditam no amor; ao contrário. Esses sabem que o amor precisa de muito mais que uma fórmula para sobreviver.
Aos vinte anos era uma pessoa, aos quase quarenta sou outra completamente diferente. Como minha jovem mulher poderia assumir um compromisso desse porte, pela não tão jovem mulher que sou hoje? Com que direito? O mesmo se aplicaria a qualquer parceiro.
Ainda mais triste é perceber que quanto mais intenso o contrato, mais difícil desfazer os nós e resgatar a liberdade. Muitas são as mulheres que ainda hoje, seguem sobrevivendo, profundamente solitárias, corações adormecidos no peito, numa existência quase em forma de sombra. Deus, se existe, jamais poderia esperar que sua criação fosse se acomodar a uma situação assim. E os homens não estão em situação muito melhor. Lidam, de fato, com a não felicidade de outra forma, mas tendem também a se manter seguramente presos no seio da família. E com isso, conspiram silenciosamente para que as gerações futuras se mantenham aleijadas e muito aquém do que deveriam e poderiam ser.
O mundo mudou, o tempo passa acelerado, a vida é mais intensa. Já é hora de encontrar novas possibilidades. Um novo homem, uma nova mulher. Comprometidos com o amor e não com o casamento e a estrutura familiar. Até porque não posso imaginar nada mais vazio do que uma família que não tem o exemplo do verdadeiro amor. E por verdadeiro amor, quero dizer; a capacidade de escolher permanecer junto a cada novo dia, a sinceridade para se mostrar por completo, a confiança para continuar crescendo, a amizade para aceitar os tropeços e erros e a liberdade para voar alto sabendo sempre que tem para onde voltar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário