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sábado, 15 de dezembro de 2012

Mudando...


Com tanta opinião apaixonada sobre esse final de ano, fica complicado não ser seduzida a olhar mais detalhadamente para a própria vida.  Se o mundo explodir, tudo fica fácil... rsrs. Mas, e se não?
Tenho percebido uma imensa dificuldade em escrever. O que antes servia para focalizar, hoje se apresenta como um árduo processo de questionamento. Minha visão está mudando, meus filtros estão se mostrando ineficientes. Não importando o assunto, descubro que sei muito pouco. E como posso me sentir apta para escrever, se ao invés dos costumeiros pontos de exclamação, sou desafiada por não tão carinhosos pontos de interrogação?
Parece que estou superando meu emocional obsessivo e descobrindo uma consciência espiritual emergente. Não mais tantas verdades absolutas.  Mais um estado de deslumbramento ansioso procurando relaxar nos mistérios da vida.
O que antes parecia óbvio, hoje se mostra surpreendente. E ainda assim, mais leve, mais compassivo, mais interessante.
É como se tivesse desligado o modo racionalização dissecadora, para a inspiração encantada.
Muito bom abrir mão da tentativa de entender para controlar e descansar na intenção de aceitar o que simplesmente é. Sem tentar alterar, sobra energia para abraçar, receber e responder com menos tensão.
A vida sempre sabe melhor. Confiar expande o coração. E nesse processo de entrega, a visão ampliada revela tons desconhecidos.  Como criança pintando os mesmos pontilhados com novas cores, novos traços... Encantamento!
Liberdade de não saber tudo, e ainda assim entender o sentido muito mais profundo!
Bom sorrir afetuosamente na ignorância de ser apenas humana. Humildade que derruba muros para que a vida chegue em grande estilo. Gostosa aventura de estar absorvida na brincadeira e me deixar levar.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Escolhas



Pessoas que são infelizes e reclamam de tudo, geralmente são as que mais temem as mudanças. Supostamente deveriam abraçar toda e qualquer chance de sair do lugar desconfortável em que se encontram. No entanto, temem... E acreditam que o novo trará algo ainda pior. Não percebem que vibrar na falta de confiança gera e investe naquilo que esperam evitar. São criadores daquilo que desejam mudar e gastam seus recursos apenas em suspiros desanimados.
A vida conspira a favor do que pensamos e respeita nossas escolhas.
Cair do cavalo faz parte do aprendizado, assim como vencer o medo e tornar a montar. Caso resolva diferente, abraço o fracasso, aceito a limitação, desisto do crescimento e fecho portas e janelas para o novo. Assim será por minha escolha! Estranho tentar culpar o cavalo ou a vida.  Estranho e pouco inteligente.
Acidentes são inevitáveis porque é perdendo o controle que aprimoramos nossas capacidades. A monotonia adormece e aleija.
Grandes e interessantes pessoas sempre trazem consigo uma longa e penosa história. Uma jornada da escuridão para a Luz!!!! Não de aceitação estagnada ao sofrimento. São diamantes esculpidos por vivências intensas. Seres que decidiram ir além.
A vida não é uma força traiçoeira e maligna. É sim uma poderosa ferramenta atuando para que encontremos nosso potencial. E se há desapontamento é porque resistimos e encolhemos. Abrir mão, relaxar, brincar, confiar e ser feliz desfaz nossa sensação de importância. Sofrer traz reconhecimento. Infelicidade supostamente nos gratifica com prestigio. Puxa! Como somos fortes em sobreviver! Sim sobreviver não é tarefa barata.
A armadilha é que nos contentamos em sem artigos caros e não com valor.
Valor é uma qualidade interna. Quanto sei que valho? Soa absurdamente prepotente... Mas, é uma pergunta que determina seu passado, seu presente e seu futuro. Quero ter preço ou valor? Ser reconhecido ou feliz? Reclamar do cavalo ou simplesmente sair galopando com os cabelos ao vento?
Escolha e aprecie a viagem.... Seja ela qual for! Só não culpe ninguém no processo... Sua vida, sua responsabilidade, sua criação!!!

domingo, 2 de dezembro de 2012

Dezembro



Dezembro chegou trazendo o conhecido sentimento de “hora para fazer o fechamento de contas”.  Tenho que sorrir com o alívio do saldo positivo.
Que aventura foi esse ano. Intenso, desafiador, exigente... Muitos tons de cinza *S*... E uma gama linda de variadas cores. Sim, de fato, foi um período realmente colorido.
E chegar até aqui de peito aberto é deliciosamente reconfortante. Dou-me uma grande estrela dourada pelo trabalho bem feito. Tudo bem que não foram só flores, mas toda a dor foi vivida com a certeza que tenho escolha. Estive triste, zangada, com medo e ainda assim consciente de que não é o que acontece e sim como respondo que conta. Sabendo que a vida sabe mais que eu e que sempre, sem sombra de dúvida, conspira a meu favor, me deixei guiar sem “reclamações”. Encarei, recebi, larguei e deixei ir. Até gritei como se estivesse na descida da montanha russa; aaaaaaaaah!!!!! Mas, cheguei aqui e percebo como tudo fica mais fácil quando paro de lutar e simplesmente aceito o que vem. Tudo passa e se transforma. Sem molduras, sem limites!
Muito especial deixar o deslumbramento banhar meu ser e ter vontade de sair dançando solta como criança feliz.
2012 quase se dissolvendo em 2013.... Pronta para o que está por vir.
Sorriso estampado no rosto e um desejo sincero de brindar em agradecimento a todos que me acompanharam até aqui.
Que seja de todas as cores, de todas as formas, criativo, desconcertante, energético e cheio de novos desafios e encontros! 


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Karma



Falar de Karma sempre sugere um peso religioso. Pagar pelas faltas cometidas, crescer pelo sofrimento, arcar com as conseqüências de erros anteriores.
Um tom de inevitável se instala e gera um espaço sedutor de sofrer para ter valor.
Gosto de pensar em Karma como possibilidade de transformação. Crise que desperta nossa vontade de elevação.
Existem duas formas de encarar a vida: destino ou processo criativo. Se aceito a noção de que o que me acontece não depende de minha vontade, me deixo aprisionar num circulo vicioso reativo que me mantém sempre no papel de vítima. Mas, se abraço cada evento como algo que pode ser transformado pela minha participação ativa, acordo para a chama divina que existe em cada um de nós.
Osho fala que milhares de anos de erros podem ser dissolvidos em um segundo de plena consciência. Não só concordo como percebo a justiça dentro dessa colocação.
E nisso se encontra o grande desafio da vida. Reconhecer nossa capacidade de alterar nossos padrões de comportamento que perpetuam nossa jornada em águas kármicas. Trabalhoso processo de resgate que exige empenho e persistência, além de boa parcela de dor. Mas, que abre as portas para uma caminhada muito mais divertida, leve e feliz. Aliás, se dar ao direito de ser feliz é uma das mais efetivas ferramentas para sair das garras do destino.
Nossas barreiras, nossos medos, nossas preocupações, são demonstrativos de nosso descompasso e desequilíbrio no fluir ritmado com a energia natural. Como se dançássemos fora da batida da música e culpássemos a mesma pela nossa falta de sincronia. Talvez, seja realmente impossível trocar o cd, mas nada há que impeça que nos entreguemos a canção e encontremos prazer na rendição ao pulsar da melodia.
Outro dia encontrei a frase: “... Quem se retarda por gosto não pode queixar-se de quem avança.” Achei perfeito!
Seja individualmente ou em parceria, nossa responsabilidade maior é encontrar o passo harmônico com os eventos da vida. Não importando o grau de envolvimento emocional, o objetivo deveria ser sempre o melhor que podemos ser. E em alguns casos, isso se traduz na tarefa árdua de deixar o que nos aprisiona para trás, seja pessoa ou situação. Enfrentar o risco de deixar alguém que nos é caro ficar no passado para que possamos continuar crescendo, pode ser visto tanto como egoísmo quanto como respeito a si próprio e ao outro. Na visão que perpetua o nó kármico, priorizamos o sacrifício, sofrendo diariamente na resistência alheia e nutrindo um ressentimento disfarçado de amor abnegado. Na oportunidade de evolução, fazemos o que podemos e respeitamos não só os limites alheios, mas também o potencial de transformação do outro. Acreditar que cada um é capaz de cuidar da sua própria vida gera um espaço respeitoso e libertador, ainda que nos obrigue a lidar com a verdade incomoda de não sermos indispensáveis. 
Crescer é fazer escolhas a cada segundo. Assumir riscos, mudar.... Conscientemente desfazer condutas que se provaram ineficientes e recomeçar. Sair da roda do destino e acordar para a dança perfeita do universo. Soltar as amarras do passado e livremente construir um presente feliz!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

The end!



A maioria das relações termina porque um dos envolvidos percebe, que por mais que se esforce, não consegue se fazer ouvir.
Em geral, isso significa que o outro se sente traído e pego de surpresa. Para um; desistir significa reaver o controle de sua vida e algum senso de respeito próprio.
Para o outro; uma reação extrema que desestabiliza e machuca, além de parecer injusta.
O que é isso que faz um falar algo e outro não ouvir ou simplesmente entender tudo de forma diferente?
Uma amiga leu meu último texto e me escreveu um bilhete doce, tentando me consolar dizendo que a paixão torna tudo muito complicado.
Foi especialmente eficiente para me fazer olhar o que me levou a uma relação sem chances de evolução. Bem, para inicio de conversa, paixão certamente não foi o combustível para a minha persistência.
Olhando e reavaliando, foi a falta que me seduziu. Chega a ser engraçado. Se não fosse trágico!
Conheci uma pessoa que me esfria! Sim, isso mesmo. Não como calmante que dá sonolência, mas como água num dia quente. Sou intensa, emocionalmente abissal, neuroticamente comprometida com meu crescimento. Séria demais. Densa demais. E em geral, sou seduzida por relacionamentos que alimentam isso.
Nesse caso, o que aconteceu foi um grande período de descanso. Tive que abrir mão do meu peso para poder estar no mesmo nível. E me senti feliz, leve, infantil. Um grande presente, que foi especialmente difícil de largar. Até porque acredito no potencial da relação. E se desisti, foi exclusivamente por perceber que não consigo me fazer entender.
Leveza foi traduzida como leviandade, confiança foi entendida como disponibilidade ilimitada, entrega confundida com cobrança e totalidade simplesmente não foi entendida.
A possibilidade era de uma relação com risos, nutrição emocional, liberdade, respeito e estimulo ao crescimento de cada um. O que aconteceu foi um choque entre crenças e condicionamentos.
O que não criou raízes para os dois, explodiu internamente como consciência de que quero viver e ser feliz. E que para ter uma relação não desejo paixão. Quero amizade. Amizade que se compromete em lutar pelas pessoas envolvidas e não cede em prol da relação. Respeito pelos limites e lealdade aos sentimentos presentes. Ouvir e falar, sabendo que haverá disponibilidade para investir no diálogo até que a compreensão emocional se estabeleça. Não preciso entender ou ser entendida racionalmente, mas não sei como permanecer no não reconhecimento emocional.
Como aprendizado esse encontro foi algo especial em tantos sentidos que não posso explicar. Perceber o que quero pacificou algo internamente de maneira profunda. E pela experiência ficou mais fácil lidar com a grande dificuldade de qualquer relação.
Difícil não é se fazer ouvir ou compreender. O desafio é não se perder na tentativa de efetivar a comunicação. Ser fiel aos próprios sentimentos, brigar por eles e saber quando desistir (se for o caso), isso sim faz a diferença.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nesse instante.




Conhece-te a ti mesmo... Deveria ser acrescido de: Para evitar desastres adiante... Especialmente verdadeiro em se tratando de relacionamentos.
Nada mais difícil do que enfrentar a realidade quando fazemos um balanço depois da ruptura. Amarga sensação de “já vivi isso antes”  é sinal de que um mergulho sério, doído e honesto tem que ser feito.
Por que precisei atrair o mesmo tipo de pessoa e história? Qual o meu ganho no investimento sem chances de realização? Como me protejo e como me saboto?
Estranhamente, apesar de muito trabalho pessoal, voltei para um espaço que conheci há muito tempo atrás. Felizmente, seja pela conspiração dos planetas alinhados no céu nesse momento ou simplesmente por mérito próprio, estou conseguindo enfrentar a responsabilidade da minha escolha e olhar com cruel honestidade e desapontamento o quanto me falta perceber para poder atingir o que almejo.
É liberta-dor deixar o outro lidar com seus limites e apenas mergulhar naquilo que pode ser mudado, leia-se: eu mesma! O outro é espelho, então, o que preciso mudar internamente? O que quer que o outro represente é algo que existe como reflexo em mim. Apontar o dedo não cura feridas. Julgar, criticar e odiar também não acresce.
Atraí o que não foi capaz de se transformar em nutrição ou crescimento. Negociei e me deixei enrolar. Dá para dizer que não sabia?
Quando no coração, nada passa despercebido. A cabeça ilude, mas no amor a verdade é sempre límpida. Por que então não consegui ouvir a voz sábia que dá sinais o tempo todo? Por mais que reconheça e me sinta grata por tudo que pude partilhar, não consigo evitar puxar minhas orelhas numa carinhosa reação de quem reconhece que poderia ter sido mais respeitosa, mais atenta, mais verdadeira.  Sei que sou uma pessoa bacana com consistência e comprometimento, e talvez por isso mesmo, esteja tão machucada por ter deixado ir tão longe. Por ter acreditado tanto. Por ter demorado tanto para deixar ir.
O que é para ser, acontece facilmente... Palavras sábias... Por que acreditei que tentar, lutar, insistir faria diferença? Aonde coloquei minha auto estima para não ver o desequilíbrio? Como pude me julgar capaz de alterar a escolha do outro? E especialmente, o que ainda ganho buscando portas fechadas?
Medo da intimidade? Falta de confiança? Pouco reconhecimento de valor? Independente dos motivos que me trouxeram até aqui, respiro fundo e me mantenho aberta. Se a falta de consciência me levou ao erro, a dor se encarregou de me conectar novamente ao coração. E esse é o lugar onde as transformações acontecem. Recolher e reavaliar. Encontrar compaixão para lamber as feridas e fortalecer o espírito. Valorizar o que mudou e continuar a busca. Ciente de que apesar dos escorregões e tropeços, dessa vez.... Não me perdi no outro, apenas me afastei da minha própria essência... E isso não só mostra o quanto cresci desde que me coloquei nessa posição anteriormente, mas facilita muito encontrar o caminho para voltar para casa!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Suspiro!



Quando uma relação termina, independente do tipo, sempre deixa um sabor agridoce. Ainda que seja possível focar na aventura do novo, o que se perdeu exige um período de luto e introspecção. Dois mundos se encontraram e por um tempo criaram algo único. Embora nunca sejamos apenas um, o hábito cria essa sensação ilusória e deixar ir dói como se estivéssemos perdendo uma parte física de nós mesmos. Na realidade, estamos sim nos desfazendo de algo interno que somente e exclusivamente a outra pessoa consegue ativar, mas não se trata jamais de algo que nos faz menores ou piores. Conviver com alguém nos coloca num processo criativo, num movimento de desafios constantes que abre grandes possibilidades. Importante ressaltar que é como se vive a relação que determina o ganho ou perda e não com quem. O outro será sempre externo e nossa vida de fato acontece internamente. Passei os últimos quatro anos envolvida com uma pessoa que me trouxe de volta a verdade do meu coração. Alguém que desperta o que considero ser o melhor de mim. E ainda assim não me sinto capaz de dizer que realmente fomos capazes de nos encontrar. Hoje percebo quão importante foi atrair o que considero ter sido meu maior engano. Porque na tentativa de partilhar o que vi em potencial, finalmente entendi que se relacionar tem muito mais a ver com ser honesta com nossos sentimentos do que esperar dividir com o outro. Foram momentos complicados e intensos, que flutuaram do sim ao estrondoso : Não quero você! Uma montanha russa de eventos difusos e confusos, atrapalhados e atrasados que me testaram internamente e serviram para questionar o que quero e espero de uma relação, tanto minha com o outro, quanto e principalmente minha comigo mesma. Quem quero ser, como quero ser, o que posso dar e o que espero receber. Durante todo esse período, sem saber como ou porquê, não pude abrir mão do que sentia internamente. Sou extremamente grata a vida por ter intercedido e me obrigado a me mover na sinceridade do sentimento independente de certo ou errado, bom ou mau, ou qualquer outro julgamento. Simplesmente me vi crescendo em amor e me deixei levar. Um amor gozado, porque voltado para o outro, mas erguido no melhor para mim. Divinamente desconhecido e incrivelmente restaurador. A sensação era ter uma voz constante soprando na minha orelha... Seja o melhor que pode ser. E fui! Com todas as sabotagens nascidas do medo da perda, com todos os tropeços de quem não quer ser machucada, com todas as trapalhadas de quem se descobre mais infantil do que supunha ser. É muito esquisito abrir mão de uma relação em que se acredita, justamente porque se acredita. Pela primeira vez em minha vida não me permiti negociar porque acreditei no valor das pessoas envolvidas. O que é para ser ótimo não deve ser mais ou menos. O coração sabe que na totalidade tudo é possível, mas no medo e na barganha algo se parte e machuca. Amei com clareza o suficiente para não aceitar o comum e estragar o que considero presente abençoado da vida. Não cheguei aonde queria, não tive o que desejo ainda, não fui amada na mesma proporção. E me sinto bem apesar disso. Difícil não é lidar com a tristeza da ausência ou raiva do não recebido, mas sim com a esperança de ver os frutos de uma semente que foi plantada com muita atenção e zelo. Esperar aprisiona... E merecemos a liberdade de caminhos que se separaram. Sem cobranças, sem resíduos. Usar o amor represado para desejar verdadeiramente o melhor para alguém que escolhe não fazer parte de nossa vida... Uma lição que estou aprendendo...

sábado, 5 de maio de 2012

Difícil de Explicar....



Muitas pessoas consideram que saúde é meramente a ausência de doença e por isso supõem que podem se manter “normalmente funcionais” independente de todos os sinais de exaustão e desequilíbrio.
É fato que o ser humano pode suportar uma imensa quantidade de stress e ainda assim não colapsar ou cair doente.  O que não se leva habitualmente em consideração é que sobrecarregados passamos a funcionar de forma perigosa. Nossos humores passam a variar, nossa visão passa a ser questionável, nossa expressão se torna potencialmente explosiva. Nesse estado limítrofe mantemos o gatilho eternamente ligado e qualquer evento pode desencadear um conflito sem sentido que trará certamente uma imensa maré de culpa e remorso tão logo a poeira se assente. Surpresos com tanto barulho por nada vemos o erro, mas ainda assim por razões que o coração desconhece e a mente inventa, permanecemos na mesma rota até a próxima colisão.
É complicado entender e explicar que limites não nos tornam fracos e que em verdade seríamos muito mais produtivos e amorosos se os respeitássemos. Até porque lidamos com o mundo da mesma maneira que lidamos com nossas mazelas. Quanto mais conscientes nos tornamos de nossa realidade interna, mais nos tornamos capazes de compreender as situações e pessoas que surgem em nossa vida.
Para dificultar ainda mais, nosso inconsciente embora não se mostre claramente, nos guia na direção que precisamos ir para atingirmos nosso potencial. E de forma amoral nos impele a buscar e criar circunstâncias que nos despertem e conectem com a verdade de nossos sentimentos e necessidades emocionais.
Não importa o quanto nos obriguemos a correr, trabalhar, produzir. Mesmo que estejamos constantemente ocupados, nosso eu estará lá, berrando ou sussurrando o que não estamos ouvindo, preenchendo, aceitando. E se caminhamos cegamente, não temos como evitar tropeços, quedas e machucados. Culpar paredes, obstáculos e até mesmo as pessoas ao nosso redor, não resolve ou acrescenta.
Abrir os olhos, ver, enxergar. Tornar consciente, perceber a dor, abre as portas para um novo caminho com maiores e melhores opções. Deixar de ser quem tudo suporta ou aquele que sobrevive não importa ao que, talvez faça o ego gemer. Provavelmente será desconfortável e assustador sair do lugar “produtivo” do fazer, para se descobrir na insegurança do real valor de simplesmente ser. Muito mais porque não estamos acostumados a reconhecer nosso interior do que pela reação externa que poderá surgir.
Estranhamente imaginamos que devemos esconder nossas fraquezas para sermos valorizados e exatamente por isso funcionamos de maneira mentirosa e ineficaz.
Obrigar-nos um desempenho impecável, apenas nos coloca distantes, protegidos e fechados, exigindo relações racionais que impedem verdadeiro contato ou nutrição.
Buscar a perfeição nos faz rígidos e nos mantém assustadoramente perto da ruptura. Não precisamos da perfeição, mas sim da totalidade. Sendo inteiros, aprendemos a complexidade humana e mergulhamos no mistério que eleva a alma. Porque a consciência nasce feroz e mostra que nossas supostas falhas são perfeitos mecanismos de encaixe e equilíbrio.

terça-feira, 1 de maio de 2012



Fechando uma década bastante intensa, finalmente me encontro de férias! E quando digo férias, não me refiro apenas a permissão de não trabalhar. Falo daquele estado interno relaxado onde existe espaço para simplesmente não se preocupar, cobrar ou tentar fazer diferente. Um verdadeiro momento de parada. Livre de expectativas, horários, deveres e exigências.
Infelizmente, cheguei aqui não por livre e espontânea vontade, mas sim porque obstinadamente me levei muito além dos limites que asseguram a saúde. Não vi os sinais de alerta, não acreditei nos sintomas e contei com uma resistência sobre-humana.
Aprendi, existencialmente, que nossa riqueza de recursos nos permite compensar deficiências de forma quase suicida. Bravamente vamos nos contorcendo, encolhendo, enfraquecendo até uma anestesia quase fatal.
Reprimimos emoções, desconsideramos fraquezas, ignoramos dores, engolimos dificuldades e nos fechamos fisicamente, aceitando uma rotina desprovida de nutrição. Esperamos que o amanhã traga soluções e enfrentamos o “aqui e agora” como uma espécie de missão a cumprir para chegar lá. Dessa maneira, ao invés de viver e crescer, criamos uma vida de provações e sacrifícios que nos leva ao desequilíbrio e solidão.
Nos tornamos atletas em constante treinamento. Seres machucados que não se dão tempo para curar e se obrigam a permanecer na tentativa de superação. Levamos o corpo à exaustão e nos obrigamos a ignorar dores, cansaços, aflições. Até o colapso acontecer. Só, então, somos obrigados a encarar o estrago. E que estrago!
Diferente de máquinas, nosso desafio maior não é restaurar nosso corpo/matéria. O desafio é encarar como pudemos nos trair dessa forma. Dói perceber que, em verdade, durante todo o percurso sabíamos que não estávamos nos respeitando, nos cuidando, nos amando. Nossa alma sussurra constantemente e por isso, por mais tentador que seja, sabemos que não existe alguém a culpar. Assumir a responsabilidade de nossas escolhas não é algo fácil a fazer. E mais difícil ainda é colher os frutos das sementes que decidimos plantar.
Até porque percebemos que fizemos um esforço supremo em prol das pessoas que amamos e que nessa tentativa fracassamos em dar o que esperávamos. Tentamos ser o que imaginamos que esperam e abrimos mão de ser o que de fato somos. Como nosso melhor só cresce na totalidade, percebemos que ao invés de atingir o objetivo nos tornamos mentiras e embustes. Exaustos, assustados e carentes, temos que recomeçar. Sair da anestesia que nos trouxe até aqui e enfrentar o fato que não fomos movidos por expectativas alheias, mas sim por padrões inconscientes que interpretaram erroneamente as mensagens recebidas, pode ser uma vivência avassaladora. Perceber nossos medos, nossas cobranças internas, nossas aflições, liberta não só nosso coração, mas também abra as portas para a realidade. E cura! Ainda que doa.
Olhar para dentro, se conhecer, rompe as algemas imaginárias que nos cativam e aleijam. Não posso ser o que o outro deseja, mas posso florescer magnificamente naquilo que sou! E nesse processo surpreendo com uma existência magicamente única.
Presentear a quem se ama com a coragem de ser o que se é... Criar a liberdade da aceitação, da compreensão amorosa, da abertura do respeito e reconhecimento, isso sim é algo que não tem preço!
E é a única possibilidade real de atingir o preenchimento que procuramos.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Desafio


Que dor lancinante é perceber que o melhor a fazer é abrir mão de quem se ama. Como é difícil chegar ao ponto onde percebemos inúteis nossos esforços para sermos ouvidos ou vistos e encarar que nossa presença antes desejada, agora não passa de desconforto e cobrança. Não que estejamos de fato emitindo essa vibração, mas quando alguém está fechado e confuso tem a tendência a projetar e responsabilizar quem se encontra ao alcance.  Parece que a falta de coragem de fazer mudanças gera um perpétuo desequilíbrio e a saída menos dolorosa é simplesmente fazer do outro o chato que exige e perturba.
Estar na crise consome a energia necessária para ter bom senso, porque assim como uma doença, nos coloca num lugar vulnerável, aberto a possíveis grandes machucados. Debilitados lutamos para nos proteger e sair desse quadro que nos faz pequenos e assustados.
Assim o outro que se encontra saudável e feliz passa a ser um exemplo de nossa deficiência e isso pode se mostrar reflexo cruel. É como se olhando para nosso parceiro, amigo, irmão, ou quem quer que esteja próximo, vemos apenas o que não temos ou podemos ser nesse momento. Abre-se então o espaço para uma dinâmica de aceitação e rejeição que determinará a força da relação.
Receber cuidados e atenção demanda coragem e confiança tanto no outro quanto em si próprio. E como a maioria de nós não se conhece bem ou se ama com profundidade, se perceber frágil, perdido e indefeso não nos torna exatamente disponíveis.
Nessas horas é que descobrimos do que somos feitos em verdade porque mais importante do que apoiar a quem amamos e estar desperto para fazer isso apenas até o ponto em que não nos deixamos quebrar, machucar e até mesmo destruir. Aceitar o momento em que teremos que priorizar nossa própria integridade é como soltar uma pessoa querida dentro do mar revolto sabendo que ela não sabe nadar.  No entanto, para não afogarmos juntos temos que enfrentar o risco e esperar na praia, rezando fervorosamente, que de algum modo nosso ente querido se liberte do medo e dê as braçadas necessárias para nos alcançar adiante. Esse é sem dúvida o pior acontecimento na vida de qualquer pessoa que ame de todo coração.
Relações não acontecem por acaso. Vibrações simpáticas se atraem porque complementam e facilitam o processo de crescimento individual. E nesses encontros todo nosso mundo interno é tocado, remexido, questionado e testado. Quando maior a conexão, maior o desafio e dor.
Esperar é tudo que resta como opção. Confiar que será o que deve ser. Lembrando que algumas sementes precisam de escura solidão para atingir o lugar crítico que as impulsionará ao desabrochar. E continuar amando...
Aberto e disponível. Sem julgamentos ou reprovação. Apenas consciência
e compromisso em ser o melhor que pode ser.
Felizmente, onde existe amor sincero, algo muito forte se estabelece. Algo que não pode ser explicado ou provado de forma inquestionável, mas que ampara e protege. Uma energia que vence a distância, enfraquece o tempo e cicatriza feridas. Algo que nos alimenta a esperança e nos faz sobreviver ainda que separadamente...  Até o próximo encontro.
  

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Livre arbítrio


Chega a ser cômico perceber que apesar de ter sido defensora ativa na adolescência do livre arbítrio, hoje me descubro profundamente incomodada pelo conceito. Talvez, seja apenas amadurecimento ou uma visão mais abrangente graças às novas e assustadoras descobertas da física quântica. Não importando como ou porquê o fato é que atualmente percebo o livre arbítrio como um grande engodo. Para ter liberdade de escolha creio que precisamos de consciência plena, o que já cria imensas dificuldades, e teríamos que ser seres isolados uns dos outros. Como essas condições não existem, o que fica de fato é a desculpa esfarrapada para ações desprovidas de responsabilidade.

Li uma matéria na Superinteressante que diz:

Uma experiência feita no Centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim, colocou em xeque o que costumamos chamar de livre-arbítrio: a capacidade que o homem tem de tomar decisões por conta própria. As escolhas que fazemos na vida são mesmo nossas. Mas não são conscientes.  (http://super.abril.com.br/saude/livre-arbitrio-nao-existe-447694.shtml)


Como podemos nos sentir donos das escolhas que fazemos se essas não nascem da consciência?

Lembro de Saint Exupéry e seu trecho tão conhecido do Pequeno príncipe:
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativa.” “Que quer dizer cativar? - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços... “

Sabendo que estamos todos envolvidos por energia e que de fato somos um, não há mais necessidade de criar laços e sim lembrar que mesmo afastados por distâncias absurdas, toda ação afeta a todos os outros. O que torna a responsabilidade da busca pela ação consciente algo imprescindível.
Precisamos acordar para o fato que a liberdade não é fruto de movimento individual e sim do envolvimento consciente de liberação de nós energéticos.

Quando faço escolhas levianamente crio bloqueios e dificuldades que se potencializam pela reação que geram. Por isso temos tantos problemas em tantas áreas diferentes.
Só para efeito de exemplificação; olhemos para um casal. Imagine que a idade começa a pesar nos dois; ela se sentido insegura pelo aparecimento de rugas e ele pela possibilidade da perda de vigor. Se ambos conseguem a coragem para lidar conscientemente com isso, poderão transformar esses sentimentos debilitantes em comunicação efetiva e intimidade e com isso abrirão espaços de saúde por onde passarem. Mas, se isso não acontecer, provavelmente farão dos filhos ou amigos próximos palco de todo tipo de loucura e julgamentos críticos. A não aceitação do processo em que se encontram será materializada em mensagens no mínimo danosas que geraram por si só mais carga de desequilíbrio.
Alguns dirão que cada individuo tem seu próprio tempo de despertar e que isso deve ser respeitado. Aceito o argumento até certo ponto, porque percebo que na maior parte das vezes isso se torna um reconfortante pretexto para compactuar com a infantilidade emocional e se eximir do compromisso com uma vida saudável e feliz.
Não creio que tenhamos muito tempo mais para gastar com adiamentos. Somos muitos vivendo num único planeta. Geradores de energias que potencializam-se entre si de forma desordenada e destrutiva.
Os danos estão em todos os lugares em diferentes níveis. Certamente, já temos informações suficientes para parar e refletir se devemos ou podemos permanecer escondidos e indulgentes no conceito do livre arbítrio ou se precisamos e podemos nos colocar heroicamente corajosos frente a verdade de que somos responsáveis por tudo e por todos nesse planeta.
Não existe liberdade significativa na inconsciência.
Que cada um se lembre disso na próxima escolha de ação.



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Eu e o outro...


Em termos de crescimento, os últimos anos foram abençoados. Especialmente no setor de relações afetivas.  Conheci e convivi com uma pessoa que me fez melhor em muitos sentidos. E por ironia do destino, nem sei se é correto dizer que partilhamos um relacionamento.
Basicamente, compartilhamos situações que mostravam o tamanho do meu sim e do não dele. É raro ter a possibilidade de “ser rejeitada” e não se “sentir rejeitada”.  E mais raro ainda é receber consecutivos sinais de portas fechadas e teimosamente se manter aberta.
Creio que foi mérito de ambos. Eu primei pela persistência, ele pela honestidade. A verdade realmente semeia bons frutos.
Se amizade é base de bons relacionamentos, temos chance no futuro. Mas, nesse momento o que existe é uma sensação de deixar ir com gentil gratidão.  E num balanço de início de ano, orgulhosamente reconheço o valor da experiência.
Viver qualquer relação e ter apoio para crescer faz toda a diferença. Mesmo nos momentos dolorosos, que não foram poucos, tive a intervenção de amigos pacientes e pude manter o foco no que me dizia respeito, evitando o tradicional jogo de cobranças que nasce quando nos sentimos tratados aquém do que gostaríamos. 
Ficar na dor de não receber o que se espera não é confortável, mas fazer isso percebendo que o outro está doando o que tem de melhor, gera a possibilidade de questionar o que estamos de fato buscando. Se atraímos alguém indisponível emocionalmente é porque no fundo ainda temos receio de encontrar algo que exija mais de nós. E assim transformamos o que poderia ser uma pancada no ego em situação passível de crescimento.
Ainda que internamente a sensação seja de potencial sem limites, não dá para brigar com a realidade sem causar sérios danos pessoais. O que poderia ser, caí no desejo, na imaginação e pode nos enjaular numa espera desapontada que destrói qualquer respeito ou consideração pelo outro. Já aceitação do momento atual, liberta pela responsabilidade de escolha.
Querer que fosse diferente só mostra a necessidade de fazer outras opções.
Ninguém pode obrigar alguém a sentir o que não sente e não deveria nem tentar. Mas, toda pessoa deveria se comprometer a honrar o que lhe acontece emocionalmente.
Acredito que apesar de eventuais tropeços, consegui manter minha integridade e ser profundamente nutrida por esse encontro amalucado e pouco definido. Durante todo o percurso consegui deixar o amor guiar e não cedi às armadilhas mentais que normalmente culpam o outro.  Aprendi que nem sempre vou obter as respostas que me fariam feliz e que se puder enxergar o outro sem o véu das minhas expectativas posso absorver o impacto através do respeito pelo tempo e limite alheio.
Certamente, não estou preparada para viver o amor que já posso dar. Felizmente, atraí uma pessoa que representou o maior não que já recebi, mas com uma qualidade abençoadamente amorosa que me faz ter esperanças de estar no caminho certo.
No acerto de contas o saldo é positivo já que não consegui o que queria embora tenha recebido o que precisava. E agora, o que quero e mereço terá mais facilidade em me achar. E com sorte... estarei pronta.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Papéis


Um dos maiores presentes que já ganhei da vida foi morar na Índia. Especialmente porque cheguei lá sem usar meu nome legal e sem conhecer viva alma. Parece brincadeira, mas o fato de ter espaço para ser sem papéis previamente definidos, me deu a chance de me descobrir muito maior do que pensava ser. Quando se é filha, namorada, amiga ou sei lá mais o que, a tendência é se mover no conhecido e esperado. Só que esses papéis foram construídos basicamente pela opinião alheia e não por auto descoberta. Não entendo bem como se dá esse processo, porque a imagem aceita vai sendo passada de um para outro sem levar em consideração as mudanças naturais de geração e dos próprios indivíduos envolvidos.
E para piorar parece-me que esse roteiro de função é muito mais voltado para o que falta do que pelos dons naturais de cada um.
Por exemplo; passei muito tempo lutando para ter a relação que gostaria com minha irmã. E só agora percebo que uma das grandes dificuldades entre nós é que buscávamos aquilo que imaginávamos faltar. Não conseguíamos incentivar as diferenças, nem perceber as qualidades. Queria que ela fosse o que me parecia certo para uma irmã e não sabia como lidar com a pessoa que era. Obviamente nessa cobrança eterna, nessa sensação de desapontamento, a possibilidade de proximidade se perdia e não surpreende que a reação tenha sido sempre uma distância protegida.
Ser olhada como alguém que não cumpre o esperado não gera uma sensação confortável. E nesse jogo todos perdem.
Somente agora começo a deixar ir meus conceitos e preconceitos de que um estado, seja namorado, filho, primo ou vizinho, deve determinar uma relação. Finalmente, percebi que para ter êxito em qualquer relacionamento preciso ser capaz de olhar o que é e não o que espero que seja.
Essa mudança de atitude faz muita diferença porque gera um convite respeitoso de aproximação. Sem contar que cria imensa liberdade de ser maior e melhor do que se espera.
Quando o individuo se torna mais importante do que o conceito do que deve ser, a vida intensifica porque papéis protegem e restringem. É como uma roupa que esconde quem está dentro. Útil certamente... mas, ninguém pode viver vestido eternamente. E na nudez, na insegurança da exposição, o real se mostra igualando seres na humildade dos defeitos e na beleza da verdade.
Viver representando pode facilitar nossa existência em muitas situações. E não seria um grande problema se fossemos desprovidos de sentimentos.
Mas somos seres que buscam aceitação e reconhecimento, seres que precisam dessa sensação generosa de pertencer e de ser amado incondicionalmente, e por isso enquanto disfarçados e escondidos não alcançamos o lugar que precisamos para sermos inteiros e saudáveis. Nossa essência divina sangra enquanto caminhamos traindo nossa verdade maior.
Aceitar se encaixar rouba nosso potencial, nossa possibilidade de fazer e ser unicamente diferente. E torna qualquer relação uma grande ilusão e desperdício de tempo.
Olhar para isso não é fácil porque me faz encarar a grande quantidade de vida que deixei escoar sem perceber e desperta uma agonia emergencial de não me deixar adormecer novamente. Hoje, quando olho ao meu redor, sofro em ver a história se repetir através de pais que vêem filhos como apêndices que devem preencher ideais impostos, casais que se perderam em paredes de proteção e sufocam numa distância bem administrada, amigos que fingem uma presença emocional num silêncio escondido por um drinque que colore a realidade da falta de contato. Todos esperando uma chance para respirar fundo, relaxar e sorrir... Mas, com tanto medo de perder a pose e o controle... que congelam, imobilizam, desistem cedo demais.
Como uma otimista persistente, embora consciente da própria pequenez, vou fazer o que posso. O que hoje floresce numa fraternal amizade com espaço para surpresas e constantes descobertas, certamente servirá para outras relações. E se puder me lembrar constantemente da alegria que é ver com olhos curiosos de primeira vez, acabo contagiando alguém... e esse alguém outro alguém.... Quem sabe? Seria especialmente maravilhoso viver entre seres que se sentem seguros para serem o que são e não presos ao que deveriam ser.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ritmo


Quem vive correndo tende a deixar um rastro de pendências no caminho. A pressa limita a eficiência, o cuidado, a excelência. Por outro lado, aquele que se arrasta tende a fazer muito menos do que poderia. Provavelmente terá melhores feitos, mas o que prima pela qualidade, certamente deixará a dever em diversidade.
A vida tem um ritmo muito específico. E dançar conforme a música não é apenas uma imagem metafórica. Ou se está em sintonia com a batida, ou se está fora dela.
Existe um pulsar que precisa ser reconhecido para que viver não seja desperdiçar tempo à espera do trem ou para esperar o próximo. 
O momento perfeito é sempre o do agora. É nele que a melhor e única oportunidade de crescimento se apresenta. E quem por qualquer razão deixa passar, perde o presente... Literalmente!
Isso se dá porque cada segundo é diferente do outro e a riqueza é se deixar encantar por esse frescor e responder com criatividade e espontaneidade. Insegurança que nos leva ao máximo do que somos porque ativa uma parte nossa que usávamos facilmente quando crianças e deixamos adormecer pela educação repressiva que recebemos.
Nossa naturalidade amoral se perde na barganha por aceitação. Comprometidos com o todo, perdemos à noção de quem realmente somos e deixamos nosso potencial esquecido.
Felicidade é a qualidade interna de satisfação pelo que somos. Estar em sintonia com o fluxo da vida gera esse estado de bem estar.
Reconhecer que somos o que precisamos ser, que somos aptos para todos os desafios diários, que não precisamos ser perfeitos, que somos únicos e diferentes, acorda a consciência necessária para soltar o corpo e entrar no compasso da música.
E uma vez livre para celebrar, estar no aqui e no agora acontece sem esforço.
Ser feliz... Não é algo para se fazer... Apenas deixar acontecer... Entrando de coração na harmoniosa canção de ser totalmente o que se é... sem pressa, sem atraso!

sábado, 3 de dezembro de 2011

Décadas


Por volta dos 20 anos, me descobri totalmente perdida. Estava com o coração destruído e sem noção do que queria ou precisava para sair do buraco onde me encontrava. Sabia apenas que me sentia fazendo tudo errado. Buscava fazer o certo para outros e mergulhava cada vez mais profundamente num caos interno de medo e dor. Independente do esforço para me sentir amada, o vazio continuava gritando e pela primeira vez vi a força da vida agindo a meu favor.
De repente, sem entender bem o que estava fazendo, me vi partindo para a Índia. Lá fiquei por mais de um ano e considero ter sido uma “intervenção divina”. Não sei bem como tive coragem para enfrentar o processo de deixar ir o que pensava que era e me colocar disponível internamente para o que pudesse aparecer. Sei que me senti literalmente expandindo, alargando, crescendo. E quando a hora se fez, retornei ao ninho para partilhar os tesouros descobertos.
Por volta dos 30 anos, vivi a perda da minha mãe. E congelei, encolhi, fechei. Em choque profundo, confesso que não vi a ruptura interna, nem a anemia emocional. Apenas a sensação de que não tinha mais chão. Felizmente, a vida novamente veio ao meu encontro e quando menos esperava já estava dentro do avião.
Na primeira vez, viajei para escolher o mundo que queria construir. Na segunda, para aceitar que esse mundo tinha deixado de existir.
Agora, depois de mais 10 anos reconstruindo um ninho, me vejo presenteada pelo empenho sincero. Pois, não precisei enfrentar longas horas de um vôo incomodo, meu pai e irmã fizeram isso por mim. Foram eles que assumiram a tarefa do crescimento e transformação. E quando laços emocionais são de amor verdadeiro, o contagio é inevitável. Durante essa ausência o que aconteceu comigo não é possível descrever ou explicar. A sensação foi ser constantemente, e a revelia, lavada por dentro. Revirada energeticamente, alterada emocionalmente e transformada mentalmente.
Não existe algo mais visceral do que uma família que se compromete a crescer junto. Isso cria uma atmosfera difícil de traduzir. E para minha alegria promete um novo ninho com mais verdade, amizade, respeito, confiança e fé.
Sinto certa hesitação não só porque a chegada iminente promete grandes mudanças, mas também porque já intuo novos ventos soprando na minha direção. Só rezo que sejam para me levar por menos tempo e numa distância menor.
Afinal... Essa década promete ser a de celebrar um mundo que  renasceu.

domingo, 16 de outubro de 2011

Segurança ou possibilidade


Sempre acreditei que a crise nos leva ao espaço consciente de busca pela felicidade e que nesses momentos conturbados resgatamos a responsabilidade em preencher necessidades e alcançar um estado de contentamento emocional.
Hoje, percebo que não é bem assim.
Sentir dor é algo que incomoda o suficiente para se buscar um analgésico. Certamente, isso já se traduz como atitude louvável. Mas, no processo da cura, buscar alívio não é suficiente.
Nossos problemas se tornam complicados porque confundimos segurança com felicidade. Entendemos que se uma situação foi algum dia agradável, deve permanecer assim eternamente. E se isso muda, ao invés de nos movermos, damos cambalhotas procurando uma forma de voltar a caber, encaixar, fazer parte. É quase como se adultos, resolvêssemos voltar ao útero materno sem compreender que isso é humanamente impossível.
Seja em tamanho ou qualidade, mudamos, desenvolvemos, crescemos. Precisamos de novidades, desde a roupa que vestimos até meros estímulos mentais. Não fomos criados para o mortalmente conhecido. Viver é aventura de descoberta. E negociar teimosamente não altera essa verdade.
Independente de nossa recusa e descontentamento somos seres em constante recriação. Acordamos todas as manhãs diferentes do que fomos ontem. Temos que lidar com essas alterações ou estaremos usando toda a nossa energia numa guerra que não pode ser ganha.
A crise não é apenas portadora da consciência da dor. É o momento em que precisamos de coragem para agir a favor do florescimento interno.
Nos anos de trabalho terapêutico percebi que a hora mais temida não é entrar na dor. O terror e a desistência acontecem em geral, quando as portas se abrem para a alegria.
E isso se repete no dia a dia. Temos tempo para enterros, problemas, agonias, terapias, médicos, e todo tipo de mazela. Fale em viajar, bater papo, relaxar, ou qualquer outra atividade lúdica e magicamente o tempo se esgota.
Somos viciados no desconforto. Vamos cegamente nos arrastando para longe do que precisamos e merecemos, sabendo quão destrutivo isso é. No entanto, acreditamos que somente assim temos valor. Daí caímos no ciclo de reclamo porque dói, mas doer me mostra a força que tenho e traz reconhecimento daqueles que me amam. Sarar me afasta da dinâmica habitual e gera reação dos conhecidos. Sozinho com dor recebo afeto. Sozinho feliz não. No fim, melhor ser doente acompanhado e seguro, do que inteiro e independente no que pode ser. Assim, nos conformamos com esse sistema indulgente e tomamos outra pílula enquanto esperamos a próxima ida ao médico. Se dermos sorte, esse nos rotulará com uma inusitada síndrome e sairemos desculpados e garantidos para permanecer nesse estado apertado para o resto da vida. Pequenos e aleijados, mas encaixados e reconhecidos.
Felizmente, nem todos seguem essa direção. Além da dor, existe a possibilidade. Santo remédio! Possibilidade é como ar fresco, grito de alegria, beijo na boca debaixo de chuva de verão. Esperança e fé! Abrir o coração e se lembrar que é filho de Deus, existência, vida ou qualquer coisa assim.
Retomar o caminho e fazer o que precisa para ser sua melhor versão. Solitário? Jamais! Assustador? Algumas vezes. Excessivamente gostoso? Sempre!
Nada tem sabor superior a ser o que se é! Ainda que seja no mais escuro momento da noite mais longa, estar consciente que pode pagar o preço de se tratar com carinho e respeito traz uma sensação que sublima qualquer justificativa em contrário.
A segurança nos estrangula e adormece. Leva-nos a um estado de apatia conformada e subserviente. Transforma-nos em seres sem paixão. Um preço caro demais. Morrer sem viver.
De frente a possibilidade, vale tomar uma respiração profunda, caminhar com joelhos trêmulos, com o coração acelerado e olhos esbugalhados. Vale o terror correndo pelas veias e a sensação de perder o controle. Porque junto a tudo isso, nasce a certeza de que estamos vivos e acompanhados. Nessa empreitada destemida a vida encontra maneiras de intervir e proteger. Uma vez aberta a porta, o convidado aparece. E nesse caso, sorrimos no reencontro do que somos; seres que merecem ser felizes, saudáveis e inteiros!





domingo, 2 de outubro de 2011

Ego x consciência


Na vida, cedo ou tarde, chega a hora de optar pela nossa verdade. É quando não dá mais para fingir que tudo está funcionando como gostaríamos e quando percebemos que o que está nos machucando não vai mudar sem nossa interferência.  É um tipo de crise existencial que demanda uma retomada de poder no curso da nossa felicidade.
Nos relacionamentos, isso se traduz em períodos desconfortáveis de falta de energia e motivação. Passamos a ver o ímpeto de partilhar crescer, mas algo se mostra rompido e ao invés da criatividade ativa, petrificamos buscando manter um restinho de nossa dignidade. O ato de dar parece mais uma tentativa inútil de barganha, do que uma promessa de nutrição.
Quando o desequilíbrio da relação chega nesse ponto, nem os amigos podem auxiliar. Até porque nesse momento um rubor interno nos faz calar as reclamações seculares e nos obriga a poupá-los de mais uma sessão terapêutica sem frutos. Explicações e justificativas não se mostram eficazes e nosso descontentamento se torna dor persistente e inegociável. O ego ferido interfere querendo evitar a qualquer custo o rótulo de fracasso, o que nos leva a novos suspiros de barganha e negociação.
Neste ponto, consciência e ego, se tornam inimigos ferozes, alternadamente nos cutucando em direções opostas. O ego lutando pela manutenção da relação, a consciência clamando por mudanças construtivas a qualquer custo. O “eu com outro” se transforma em “ou eu ou o outro”. Percebemos que sobreviver ao desamor alheio é possível. Mas, como sobreviver ao próprio desamor?
E se chegamos ao ponto de questionar o que devemos dar, qual é o valor da ação, então definitivamente precisamos olhar o que somos para nós mesmos.
Investir no potencial de algo pode ser tentador. Lidar com o real por sua vez pode ser tarefa assustadora. O que gostaríamos que fosse e o que é, tanto mostram o caminho a seguir quanto o caminho que não serve mais. Potenciais podem permanecer potenciais... Mas, a vida acontece na realidade e não no que pode vir a ser.
Quando o movimento criativo passa a ser restringido pelo medo de ser usado, não visto, rejeitado, ou qualquer coisa do gênero, algo internamente começa a ferir e se não tomamos providência acabamos envenenados por nossa própria escolha.
Ter que descartar nossas melhores qualidades seja por que razão nos faz complacentes com a doença emocional que destrói qualquer chance de felicidade verdadeira.
Por mais que seja complicado lutar por uma relação, se estamos fazendo isso nos superando a cada passo, então existe sentido e esperança. Mas, se nos deixamos podar e encolher para evitar um dano supostamente maior, apenas construímos um cenário de mágoas e ressentimentos que cobrará muito mais do que qualquer relação pode valer.
Sair machucado, mas inteiro, confiante e aberto é sem dúvida mais saudável do que permanecer no desconforto infeliz que joga a responsabilidade no outro.
Ego e consciência. Um se apega e perde, outro deixa ir e ganha.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sublime sofrimento


Conta-se a história de um homem que passou a vida procurando Deus e num certo dia encontrou o lugar.
Nesse momento, foi consumido por um medo intenso e decidiu permanecer à procura. Melhor saber onde está, mas não entrar, do que entrar e não saber o que mais fazer.
Parece que isso traduz um dos mais cruéis condicionamentos humanos. Permanecer na busca pelo medo de ser perder no encontro.
Freud dizia que o máximo possível para o ser humano é alcançar o estado normalmente infeliz.  Neuróticos convictos podem apenas, e com sorte, encontrar um lugar de encaixe nessa sociedade doente. Se permanecermos científicos, creio que ele tem razão.
Felizmente, todo individuo carrega um imenso mistério dentro de si. Algo que não se explica, mas que incentiva buscar algo maior do que a miséria habitual.
A tarefa que nos cabe é perceber que investimos ferozmente na infelicidade para que tenhamos algum senso de valor. Sofro porque sou bom, abnegado, espiritual. Sofro porque sou maior, mais forte, melhor do que os que me rodeiam. Sofro porque ser feliz me liberta e assusta.
Meio maluco mais facilmente reconhecível. Basta olhar as pessoas que se arrastam reclamando da família, do parceiro, do filho, do emprego, do vizinho, etc. Se a felicidade tocar a campainha, não obterá resposta. O emprego novo surge, a pessoa certa aparece, o filho sai de casa, e a pessoa justifica a manutenção da infelicidade de maneiras surpreendentemente criativas; o emprego pode não dar certo, a relação estragada que está vivendo representa esforço que não pode ser jogado fora, o espaço livre na casa gera uma corrosiva solidão. Como a vida pode ser tão cruel?
A vida jorra abundância e alegria ininterruptamente, e nós desviamos adormecidos nesse ciclo doentio que aprendemos ser a única forma de crescer. A dor gera ganho. Será?
Outro dia uma amiga me disse que o passado é como comida estragada. Não importa quão maravilhosa tenha sido, se estragou, tem que ir para o lixo.  O que é óbvio nesse sentido, por uma razão que não compreendo, não é nas outras áreas de nossa existência. Continuamos comendo estragado, tentando nos convencer que não temos outra opção.
A esperança é acender a luz interna que nos conecta com respeito e auto estima. É se obrigar, literalmente, a fazer escolhas comprometidas com a saúde e especialmente assumir a responsabilidade de sua própria alegria ou tristeza.
Questionar seriamente o que pensamos merecer e quais são as nossas reais motivações na permanência da dor.
Assim, caso nos falte coragem para viver bem, pelo menos teremos a serenidade de sermos medíocres por opção.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Vida



No filme 28 dias, um terapeuta responde a pergunta de um cliente sobre como saber quando deveria voltar a se relacionar, sugerindo que compre uma planta e cuide dela por um ano. Caso a planta sobreviva, então compre um bicho de estimação e cuide por dois anos. Se este também sobreviver, saberá que está maduro para se relacionar.
Parece algo meio fora de propósito, mas me marcou profundamente porque faz perceber que se relacionar exige uma presença e comprometimento constante.
Quem já teve bicho de estimação certamente sofreu grandes dificuldades. Não só porque dá trabalho, mas porque bichos não negociam, não deixam para depois, não fingem e não mentem. Naturalmente nos cobram um posicionamento completamente diferente daqueles que estamos acostumados a ter.
Tenho me olhado muito. Já tive planta, já tive bicho. E muitos relacionamentos humanos.
E a cada relação percebo como ainda temos tanto a aprender. O equilíbrio entre dar e receber é algo essencial para manter viva a chama que une duas pessoas.
Mas, para que isso aconteça precisamos nos manter conectados com nossas expectativas, necessidades e carências. Dar é algo maravilhoso, transbordar nos faz parte de algo excepcional. E é a melhor parte da relação porque nos lembra quão únicos somos. E exatamente por isso precisamos manter nossas despensas abastecidas.
Se aceitamos a indiferença, descaso, esquecimento, permitimos que o estoque vá se desfazendo e não demora para nos perdermos numa mágoa corrosiva que vai afastando e destruindo o que quer que exista de especial.
Quando a rotina se instala e a conversa começa, o sinal de emergência dispara. Ambos mostram apenas que deixamos de nutrir, investir e alimentar a relação. E não haverá melhora enquanto gastamos tempo procurando entender como chegamos aqui. Isso é como deixar de regar uma planta por dias e ao vê-la contorcida e fraca, procurar entender como isso aconteceu, ao invés de simplesmente voltar a regar.
Cuidar do outro é mostrar que faz diferença. Cuidar de si próprio é fortalecer a possibilidade de uma vida mais rica com a presença do outro.
O equilíbrio é a razão que torna uma relação saudável e feliz.
E dá muito menos trabalho do que engolir a tristeza de não ser visto, amparado ou confortado.
Aceitar uma relação que lhe exige sobreviver no mínimo é cruel não só porque machuca, mas e principalmente, porque lhe priva da chance de florescer no seu esplendor.
Maturidade é escolha corajosa de se manter nutrido, e a responsabilidade de ser o melhor que se pode ser. Por si próprio e por todos os outros.
Só assim a vida se perpetua e o amor se mantém.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

De cara com o passado


Comecei a semana dando de cara com o passado. Imaginei que seria capaz de mergulhar nessas águas profundas e sair refrescada, quase como se faz em reencontro de turma de colégio. Não foi assim.
Algumas pessoas são como pedra base em nossas vidas. De algum modo se transformam em referência e idéia de porto seguro, facilitando sobreviver aos trechos complicados de nossa jornada. São entes queridos que não vemos com freqüência, embora confiemos que permanecem nos amando como fizeram enquanto parte ativa de nossas vidas.
Conheci uma pessoa há 25 anos atrás. Rebelde, forte, ousado e intenso. Alguém que me arrastou aos recantos mais dolorosos, perigosos e desagradáveis da minha capacidade emocional. E que me elevou aos picos mais intensamente prazerosos da minha existência.
Apesar dos desafios dessa montanha russa emocional, nunca me senti deixada para trás. Nunca duvidei que seria amparada no primeiro pedido de socorro. Confiei na eternidade. Confiei na capacidade humana de estar presente quando existe amor real. Confiei que tinha sido abençoada por um conto de fadas contemporâneo onde protagonistas vivem felizes em casas separadas. Confiei no sentido de cada evento, doído ou não.
Agora, preciso aprender a confiar no que restou. Preciso encontrar sentido em saber que não serei resgatada, amparada ou ouvida. Preciso sobreviver a certeza de que mesmo sendo o amor real e feroz o encontro não é mais possível. Como lidar com alguém que se perdeu de si próprio, se deixou abater e apagar e que acredita que é assim que deve ser? Como responder a um chamado com qualidade de despedida e desistência?  Como lidar com um pedido de socorro que vem de alguém que já não é mais?
Parece um pesadelo onde escuto vozes que reconheço e não consigo localizar de onde vem. Que solidão e angústia é tentar alcançar o que já está perdido.
Fui ao encontro de alguém que significou tudo e tive que lidar com uma casa vazia, abandonada e sem luz. Conformado, alquebrado, traído por si próprio. Uma devastação que me fez encolher e chorar. Chorar fundo por nós dois. Uma tristeza amarga na compreensão que poderia ter sido maravilhosamente diferente. Pequenas escolhas que separaram e aniquilaram o que poderia ter sido. Um homem bem sucedido que pagou o preço com a própria alma.
Sim o passado retorna... E cobra novas escolhas... Deixar ir para sobreviver. Reavaliar o presente. Questionar o que merece permanecer.
Acordar para o fato que uma decisão pode alterar tudo de maneira irreversível. Amar com todas as fibras do seu ser para sobreviver a impotência e o desamparo de não poder mudar o que é. Dizer adeus para não sucumbir junto. Respeitar sua própria humanidade limitada e com isso nutrir a fé em si, única aliada no final do dia.
Conforta saber que a eternidade desabrocha nas lembranças especiais guardadas com teimoso carinho ...