Um dos maiores presentes que já ganhei da vida foi morar na Índia. Especialmente porque cheguei lá sem usar meu nome legal e sem conhecer viva alma. Parece brincadeira, mas o fato de ter espaço para ser sem papéis previamente definidos, me deu a chance de me descobrir muito maior do que pensava ser. Quando se é filha, namorada, amiga ou sei lá mais o que, a tendência é se mover no conhecido e esperado. Só que esses papéis foram construídos basicamente pela opinião alheia e não por auto descoberta. Não entendo bem como se dá esse processo, porque a imagem aceita vai sendo passada de um para outro sem levar em consideração as mudanças naturais de geração e dos próprios indivíduos envolvidos.
E para piorar parece-me que esse roteiro de função é muito mais voltado para o que falta do que pelos dons naturais de cada um.
Por exemplo; passei muito tempo lutando para ter a relação que gostaria com minha irmã. E só agora percebo que uma das grandes dificuldades entre nós é que buscávamos aquilo que imaginávamos faltar. Não conseguíamos incentivar as diferenças, nem perceber as qualidades. Queria que ela fosse o que me parecia certo para uma irmã e não sabia como lidar com a pessoa que era. Obviamente nessa cobrança eterna, nessa sensação de desapontamento, a possibilidade de proximidade se perdia e não surpreende que a reação tenha sido sempre uma distância protegida.
Ser olhada como alguém que não cumpre o esperado não gera uma sensação confortável. E nesse jogo todos perdem.
Somente agora começo a deixar ir meus conceitos e preconceitos de que um estado, seja namorado, filho, primo ou vizinho, deve determinar uma relação. Finalmente, percebi que para ter êxito em qualquer relacionamento preciso ser capaz de olhar o que é e não o que espero que seja.
Essa mudança de atitude faz muita diferença porque gera um convite respeitoso de aproximação. Sem contar que cria imensa liberdade de ser maior e melhor do que se espera.
Quando o individuo se torna mais importante do que o conceito do que deve ser, a vida intensifica porque papéis protegem e restringem. É como uma roupa que esconde quem está dentro. Útil certamente... mas, ninguém pode viver vestido eternamente. E na nudez, na insegurança da exposição, o real se mostra igualando seres na humildade dos defeitos e na beleza da verdade.
Viver representando pode facilitar nossa existência em muitas situações. E não seria um grande problema se fossemos desprovidos de sentimentos.
Mas somos seres que buscam aceitação e reconhecimento, seres que precisam dessa sensação generosa de pertencer e de ser amado incondicionalmente, e por isso enquanto disfarçados e escondidos não alcançamos o lugar que precisamos para sermos inteiros e saudáveis. Nossa essência divina sangra enquanto caminhamos traindo nossa verdade maior.
Aceitar se encaixar rouba nosso potencial, nossa possibilidade de fazer e ser unicamente diferente. E torna qualquer relação uma grande ilusão e desperdício de tempo.
Olhar para isso não é fácil porque me faz encarar a grande quantidade de vida que deixei escoar sem perceber e desperta uma agonia emergencial de não me deixar adormecer novamente. Hoje, quando olho ao meu redor, sofro em ver a história se repetir através de pais que vêem filhos como apêndices que devem preencher ideais impostos, casais que se perderam em paredes de proteção e sufocam numa distância bem administrada, amigos que fingem uma presença emocional num silêncio escondido por um drinque que colore a realidade da falta de contato. Todos esperando uma chance para respirar fundo, relaxar e sorrir... Mas, com tanto medo de perder a pose e o controle... que congelam, imobilizam, desistem cedo demais.
Como uma otimista persistente, embora consciente da própria pequenez, vou fazer o que posso. O que hoje floresce numa fraternal amizade com espaço para surpresas e constantes descobertas, certamente servirá para outras relações. E se puder me lembrar constantemente da alegria que é ver com olhos curiosos de primeira vez, acabo contagiando alguém... e esse alguém outro alguém.... Quem sabe? Seria especialmente maravilhoso viver entre seres que se sentem seguros para serem o que são e não presos ao que deveriam ser.

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