Um dos motivos pelos quais não quis ser mãe foi ser consciente que não existem meios para poupar um filho da exposição ao mundo maluco em que estamos vivendo.
Semana passada, abri a porta da minha casa e fui envolvida pelos braços de meu sobrinho de 10 anos, aos prantos, se dizendo cansado de apanhar na escola. Não sei como não enfartei. Até começar a ter alguma noção do que estava realmente acontecendo, percebi meu lado assassino querendo explodir o colégio com professores e alunos dentro. Através da névoa de raiva, de desespero, de vontade de apagar qualquer sombra de dor dentro dele, me deparei com alguma sanidade para ouvir e tentar compreender o que tinha acontecido.
Resumindo a história: 3 alunos “problemas” criaram o hábito de infernizar a vida dele. Graças a Deus, não tanto com violência física, mas com insinuações desdenhosas, galhofas e coisas do gênero. O problema é que durante os últimos 3 anos, esse garotinho em construção, escolheu calar ou minimizar seus sentimentos para não ser dedo duro ou se sentir pequeno e incapaz. Ele enfrentou o que pode agüentar, sozinho, na tentativa de alcançar os padrões que julgou serem certos.
E quanto mais se abria e se colocava, mais espalhava pedaços do meu coração pelo chão. Ver uma criança se desnudando num pedido de socorro e se colocando com preocupações morais e éticas, fez com que me sentisse muito pequena.
Impossível não questionar uma série de coisas. Como não soubemos de nada? Como os professores lidam com isso? Que tipo de expressão devemos esperar das crianças? O que fazer com crianças que incomodam e intimidam? Como deixamos de perceber o desconforto e receio que o vinha corroendo internamente? E especialmente: como sobreviver ao conceito de que sempre chegarei atrasada? Não posso evitar que caia, apenas posso ser o apoio para que levante e isso de repente me pareceu muito pouco.
Ser mãe nos dias de hoje certamente exige um treinamento especializado. Não dá mais para colocar no mundo e rezar pelo melhor. Tem que ser de tudo um pouco, psicóloga, nutricionista, médica, motorista, economista, e se possível desenvolver aguçada percepção extra sensorial.
Crianças parecem “sólidas”, mas infelizmente, não são. Sofrem mudanças o tempo todo, recebem influências de todos os lados e tem uma maneira peculiar de lidar com isso. Não estão sedimentadas nas regras sociais e fluem numa lógica emocional única e interna. O que torna o papel de mãe uma tarefa nada simples.
Mais do que enfrentar os problemas e ameaças externas, percebo agora, que criar uma criança exige uma presença atenta e constante. Uma arte que exige aguçada investigação e sensibilidade emocional. Aprender a linguagem infantil não é algo possível de conseguir sem empenho e disponibilidade de tempo.
Nossos pequenos desafios ambulantes (me refiro aqui a qualquer criança) são maiores e melhores e muito mais profundo, sábios e intensos do que tendemos a acreditar. Exatamente por isso, vêem a vida de uma forma esquecida dos adultos. Estão formando princípios e valores sem o controle exclusivo da razão. Inocentes de coração, ainda sentem com profundidade e esperam a proteção incontestável dos pais. E quando machucados julgam-se severamente, tentando compreender o que fizeram para terem sido deixados de lado.
Quanta dor seria evitada se tivéssemos mais tempo e mais atenção....
Minha irmã já mudou meu sobrinho de colégio. E esse foi o menor ganho. Importante foi a lição que nós duas e todas as professoras e a diretora do colégio tivemos que engolir. Criança é assunto muito sério. Não dá para ser mais ou menos. O melhor de nós é o mínimo que podemos oferecer... Coração partido é algo que dar para enfrentar, mas ver o coração de uma criança machucado é algo que ninguém com um pingo de consciência pode superar. Quando uma alma limpa e pura perde a fé na proteção e amparo... o mundo chora e tudo perde o sentido.
Continuo não querendo filhos. Mas, aprendi a olhar as mães que são realmente mães com muito mais respeito e admiração. Que sejam abençoadas com a consciência da imensa responsabilidade que escolheram assumir.

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