Se cada pessoa tem uma característica mais intensa, a minha certamente sempre foi ser capaz de ler energias. E quando digo isso, estou me referindo a sensibilidade que todo indivíduo tem de perceber que o que se diz nem sempre traduz em verdade aquilo que é. Somos condicionados a racionalizar sentimentos e esconder nossas supostas fragilidades. Vestimos máscaras que nos protegem e tentamos elaborar o que sentimos através de discursos racionais. Pensamos para entender sentimentos e nos poupar ter de senti-los.
Quando criança esse tipo de comportamento gerava imensa ansiedade, já que me faltava maturidade para compreender a divisão que percebia entre o que me era dito e aquilo que intuitivamente via nas expressões faciais ou sentia no meu próprio corpo. Durante muito tempo me senti um ET incapaz de relaxar nesse mundo onde o que se fala e se faz não combinam. Só não enlouqueci porque incapaz de me anestesiar ou proteger, acabei desenvolvendo uma forma particular de interagir com as pessoas. Pautada na falta de confiança em qualquer individuo, aprendi a respeitar meus instintos. Então, comecei a responder ao que o outro fazia vibrar internamente, sem dar grande peso ao que dizia. E surpreendentemente fui conquistando o titulo de amiga, porto seguro, esteio, etc. Pela gratificação desse reconhecimento, reuni as forças necessárias para mergulhar cada vez mais profundamente no meu próprio processo de auto - conhecimento. Precisei (e ainda preciso) estar muito conectada com o que sinto já que não consigo evitar ser inundada pela energia alheia. E para não adoecer ou viver confusa, estar cruelmente presente no que está acontecendo internamente é questão de sobrevivência.
A vida, no entanto, é feita de polaridades assim concomitantemente ao imenso ganho de saber reconhecer a realidade emocional alheia, vem também o fardo de ser aquela que espelha o que gera insegurança, sensação de inadequação e exposição.
Sou tanto a pessoa que dá colo e conforto, quanto a que despe e desvenda. Em termos de relacionamentos pessoais posso garantir que é no mínimo uma vivência nada monótona. E indiscutivelmente ardida!
Tornei-me instintiva, fixada no que sinto e não no que penso. Sedenta por contato profundo e desesperada pelo relaxamento da confissão da realidade. Não suporto jogos mentais, embora seja ávida pela compreensão racional do que me acontece. Respondo ao que sinto, e ajo apesar da razão. E me meto em situações onde outros não entram nem empurrados. Gosto da aventura de perder meus limites, ser inundada pelo outro, e ter que me redescobrir e expandir através dessa experiência. Estar dominada pela presença alheia, acorda a confiança que busquei a vida inteira e me integra como pessoa. Encontros sociais, negociações verbais, comportamentos condicionados me machucam e diminuem.
Na minha experiência comunicar só é possível quando o compromisso é com a totalidade e não com o que é certo ou desejado. Estranhamente, aos longos dos anos, repetidamente tentei me encaixar e como resultado sempre deparei com arestas e atritos. Em contra partida, meus momentos “redondinhos” acontecem quando sou o que sou sem subterfúgios. Quando racionalizo e ajo, não me preencho. Na ação instintiva, algo mágico acontece, uma sabedoria além de explicações faz tudo se encaixar, mesmo que aparentemente o resultado tenha sido insatisfatório.
Sei hoje que minha consciência pessoal é imensa. E que isso me coloca numa posição bem exigida. Conhecimento e responsabilidade caminham juntos. Entender que a linguagem universal é energia e que nada é separado cria uma visão muito especifica em relação aos papéis humanos.
Saber muito sobre si próprio é entender o quão pouco se sabe sobre todos os outros. Sou um vasto processo em andamento que influi, afeta e interage com milhares de outros processos. O que escolho transforma a vida em formas que não consigo quantificar. E sou transformada a cada segundo pela ação de pessoas que talvez nem venha a conhecer. Nessa rede energética brincamos de viver tanto conscientemente quanto não. Saber responder e sobreviver dentro desse contexto é missão individual que exige esforços e comprometimentos. Nada acontece por acaso e cada um tem seu papel definido a desempenhar.
Eu aceitei o meu. E pago o preço a cada dia. Celebro cada segundo onde posso acolher o outro sem limites e aprendo com a quase insuportável lição de ter que desfazer e deixar ir.
Dar e receber. Pegar e soltar. Nascer e morrer.

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