quinta-feira, 9 de julho de 2009

Família



Todo dia coloco alpiste numa tigela de barro na varanda do meu apartamento. O que atrai um monte de diferentes pássaros. Ontem, quando fui despejar o alpiste, percebi que uma lagartixa estava bem perto da tigela e minha primeira reação foi tomar cuidado para não assustá-la. Logo em seguida, tive a intuição que poderia estar numa situação pouco segura. Não sei bem como é a relação pássaro/lagartixa e racionalizei que embora pequenas, esses bichinhos rastejantes normalmente são rápidos e ágeis. Deixei para lá...
Horas mais tarde, encontrei a dita completamente estropiada. Ainda no mesmo lugar, só que em condição deplorável. Minutos mais tarde já estava morta.
Percebi uma sensação muito desconfortável inundar meu coração e comecei a questionar se deveria ter feito tudo de forma diferente. Parece maluquice, mas reconheço esse padrão em todas as situações da minha vida.
Aproveitando o exemplo, passei a me perguntar como lidamos com esse tipo de situação em nosso dia a dia. Como estabelecer o limite entre responsabilidade e respeito ao livre arbítrio de cada um? Toda relação implica em transformar o outro em alvo de nosso cuidado e preocupação. E em muitas ocasiões isso se traduz em perceber que aquele que amamos está se colocando numa posição que pela nossa experiência sabemos não poder trazer um resultado feliz. O conflito interno se instala e temos que decidir se seremos expectadores ou participantes... isso se o outro nos permite. Em determinados momentos, nem isso podemos fazer.
Não é a toa que em 90% dos casos de procura terapêutica o motivo sempre está relacionado às dinâmicas familiares. Embora tradicionalmente encaremos o núcleo familiar como o lugar para onde vamos nos refazer e nos recarregar, na prática, isso tem se mostrado pouco verdadeiro. Famílias chamadas disfuncionais são muito mais numerosas e traduzem mais a realidade contemporânea do que nossa antiga versão romanceada. Por algum motivo, ou por muitos diferentes motivos, nossas relações mais íntimas tem sido responsáveis por nossos maiores, mais profundos e complicados problemas. Muitos dos sofrimentos se traduzem em solidão acompanhada, em falta de espaço, em total desrespeito aos limites alheios e em dificuldade de saber até onde vai nossa responsabilidade com o outro. Se sacrificar pelo outro não é receita de sucesso. Ainda mais se o outro se encontra num processo auto destrutivo. Pense nos filhos consumidores de drogas. Até onde devem ir os pais? Por mais conscientes que estejam dos perigos relacionados ao uso, como podem proteger seus filhos? Conviver se torna perigoso para todos, mas como estabelecer os limites?
No mundo dos bichos, o filhote disfuncional seria apenas deixado para trás. Certamente, não permaneceria vivo por muito tempo. Outro mais forte e sadio seria concebido e ainda assim permaneceria sob cuidados apenas por curto período. A vida, a sobrevivência na selva é a prioridade e não os vínculos afetivos. Parece cruel? Talvez! Mas, como manter vínculos quando o outro está desconectado, anestesiado e perdido num mundo químico, doente, destrutivo? O mais forte deve ajudar o mais fraco? Até que ponto? Será que evitar o fundo do poço é a forma correta de lidar com o sofrimento alheio? Por quanto tempo é possível segurar a mão e evitar a queda?
Exemplos menos pesados não são menos verdadeiros. Quando vemos um irmão ou amigo se debatendo numa relação que só lhe faz sofrer, caímos na mesma encruzilhada. Como tomar uma posição? E por que devemos lidar com as ondulações dessa escolha alheia a nossa vontade? Até que ponto o outro tem direito a nos machucar com seu próprio sofrimento?
Não é de surpreender que o mundo esteja tão complicado.
Parece que perdemos o contato com a responsabilidade de sermos felizes e saudáveis. Perdemos o foco do que é verdadeiramente importante. Esquecemos que temos o direito e o dever de nos cuidarmos e nos mantermos íntegros.
Ainda procuro uma fórmula que indique o melhor caminho. E essa busca se traduz num compromisso pessoal de viver com redobrada atenção. Até aqui, apenas aprendi que não posso obrigar quem amo a se comportar como quero. Nem posso evitar que cometa erros ou se machuque. A maturidade, no entanto, me fez compreender que se não posso impor limites, posso e preciso saber quando parar para não ultrapassar os meus próprios. Para dar, preciso ter. E no que diz respeito a relações afetivas, ter para dar significa ser feliz. A felicidade nos nutre com sabedoria, paciência, força e amor. Ser feliz me parece o melhor presente que posso oferecer a quem amo. E o único que verdadeiramente pode fazer alguma diferença.

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