
Muitas pessoas pensam que o medo está relacionado com tudo que há de negativo na vida. E racionalmente isto faz sentido. Infelizmente, nós humanos, somos maiores do que nossos pensamentos lógicos e quando nos guiamos apenas pelos mesmos, nos encurralamos na armadilha que supostamente criamos para nos proteger e conseguir sobreviver.O medo existe para que tentemos evitar a dor. E como qualquer sistema de defesa, deveria ser ligado ou desligado quando o perigo se fizesse iminente. Mas, no mundo atual, parece sensato dizer que o perigo está em todo lugar. Como é possível, então, viver com medo? Quais os ganhos e perdas de se manter eternamente em estado de alerta?Poderíamos chamar de ganho nossa capacidade de evitar o colapso emocional, nossa habilidade de pensar e racionalizar as situações problemáticas da vida e continuar indo em frente.
Não há como imaginar o ser humano vivendo no medo e sendo capaz de fazer escolhas realmente sábias. Pense bem: no medo escolhemos entre duas opções de sobrevivência. Lutar ou fugir! Em ambas o externo é uma ameaça à vida e em sendo assim, um inimigo! E quando fixamos essa postura de estado eterno de auto - preservação, perdemos a capacidade de saber o que e quem é, ou não, um real perigo. Sempre nos defendendo, perdemos a perspectiva, nos tornamos rígidos, reativos e agressivos. Todo momento carrega em si o potencial do perigo e da dor. A vida é um mar de constantes desafios. E no mundo atual, a realidade é, na verdade, de assustar.E se pensarmos no pior, no mais doloroso evento possível? Certamente a idéia da morte de imediato se faz presente. Nosso instinto berra pela vida e nosso maior medo, aceito e declarado abertamente, é o de morrer. Seria correto dizer que vivemos com a sombra da morte em nossos pescoços? Seria acertado afirmar que é esse o motivo de nossa aceitação à convivência com a falta de ar gerada pelo estado constante de vigilância temerosa que nos foi imposta?Racionalmente, qual o sentido de correr da única coisa que sabemos ser impossível de evitar? Do que estamos de fato fugindo?Nos meus quase quarenta anos de vida, percebi que o temor é na verdade, da vida, do prazer e do amor. Surpreso? Duvido! Intuitivamente, sabemos disso. Não importa o quanto sua mente racional explique e justifique. Lutar e fugir são sabidos, aprendidos e ensinados com esforço e esmero. Mas, permanecer aberto, desnudo, vulnerável, é coisa de arrepiar os cabelos.Aprendemos a sempre reagir e esquecemos o que significa se render. A vida, amante ladina, insiste em acontecer apenas no relaxamento e na entrega. Então, permanecemos à margem, deixando de mergulhar na alegria e no êxtase do mar vibrante que é a vida. E para quem ousar discordar, sugiro que olhe friamente para o mundo. Noventa por cento (sendo compassiva) do que estamos criando é destruição, desequilíbrio e desarmonia. Todos reclamam, criticam, culpam isso ou aquilo, mas permanecemos compactuando com essa jornada de medo e de morte.Viver dá trabalho e desafia. Viver exige que olhemos para o que somos, o que queremos, o que estamos fazendo, o quanto acreditamos, o que podemos contribuir. Viver acontece quando nos tornamos capazes de nos responsabilizar pelo reflexo que vemos no espelho, quando amadurecemos o suficiente para entendermos que somos todos maravilhosamente diferentes e únicos. Viver só acontece quando desabrochamos por inteiro em nossa unicidade e assinamos nossa jornada com essa qualidade individual. Viver é expressar corajosamente nossa capacidade natural de nos emocionarmos com pequenas coisas comuns, como a risada de uma criança ou o abraço de um amigo. Viver é nos permitirmos tremer por inteiro na presença da possibilidade do encontro amoroso. Viver é deixar que sejamos descobertos, desnudados por completo com falhas e defeitos postos sobre a mesa sabendo que podemos e seremos amados de qualquer maneira. Viver é sermos traídos, machucados, abandonados e permanecermos confiante com o processo da vida. Viver é arriscar dizer sim quando o sentimos e dizer não da mesma forma. Viver é sinceramente expressar o que pensamos e sentimos, nutrindo o que percebemos como verdade. Viver é acalentar nossa capacidade de transmutar crises e sermos capazes de manter nossos corações abertos. Viver é aceitarmos o desafio de deixar que o rio flua livremente, forte e independente.Ter medo de morrer não altera o final do caminho. Permanecer no medo de viver, apaga a jornada e faz com que permaneçamos inconscientemente mortos. Vale pois a aventura de fazer de sua vida uma história de amor!
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