segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

A tragédia do menino João




Vi pedaços da reportagem apresentada no Fantástico ontem. Fiquei horrorizada com a capacidade que as pessoas têm de se desviar do que realmente importa. Falou-se em um momento de parada e reflexão no que diz respeito às regras de nossa sociedade. Falou-se em leis mais severas e exclusão social.
Concordo com a necessidade de se pensar nessas coisas, mas se não olharmos para a raiz do problema, faremos o que temos feito no decorrer de toda a história da humanidade. Apenas, empurrar a sujeira para baixo do tapete.
O que precisamos, de forma urgente, é refazer o conceito do que é ser Humano. Todo o discurso dos representantes de nossa sociedade faz referência ao fato do homem ser essencialmente capaz de ser mau.
Isso é uma meia verdade e envenena qualquer possibilidade de uma solução. Enquanto encararmos o outro, seja ele quem for como possível inimigo, estaremos criando defesas, barreiras, separações, conflitos e violência.
A mãe do menino João pediu que nossos representantes governamentais olhassem para esse caso não como uma estatística e sim como seus próprios filhos. E ela ouvindo a voz de seu coração devastado pela dor, deu a todos nós o caminho para as verdadeiras soluções. Quando tornamos o outro nosso filho, ou nosso ente querido, todas as aceitáveis regras sociais passam a ser vistas de outra forma.
Fala-se em direitos humanos, mas não como algo que proteja nossa “família” e sim como forma de mascarar a marginalidade. Fala-se em justiça, mas não para trazer a nossa honra de volta e sim para esconder a incompetência governamental. Fala-se do aumento da violência devido à exclusão social, não para dar a todos uma vida melhor e sim para disfarçar o fracasso e descaso com nossa rede pública de ensino. E assim por diante.
Precisamos investir no indivíduo. Precisamos resgatar valores. Precisamos relembrar que somos feitos à imagem e semelhança do criador. E isso não é possível aceitando as dificuldades de maneira paternalista.
Um mundo que aceita dar esmolas, não importando a forma como isso acontece, é um mundo que alimenta a presença da carência em todos os seus aspectos. Simplesmente precisamos dizer NÃO!
O sistema de ensino está errado? Não compactue com ele. Existem mendigos na sua rua? Não dê esmolas.
Foi assaltado? Apóie a polícia. A polícia é corrupta? Cobre decência ao seu representante governamental.
Isso tudo parece muito distante? Ensine o seu filho que ele é o futuro e que precisa ser integro, honesto e decente. Acha que ele não sobrevive assim nesse mundo? Lembre-se que você sobreviveu e que se existissem muitos outros como você, não estaríamos tendo essa conversa.
Se o ser humano for capaz de fazer valer o seu valor, se respeitar e procurar sempre o que é melhor, não haverá motivos para violência. Quero para o outro, aquilo que quero para mim. Habitação, alimentação e saúde de primeiro mundo. Honra, dignidade, honestidade, prazer, paz e amor. Nada menos que isso deve ser esperado ou aceito.
Estivemos por décadas caminhando na contra - mão, dizendo não e tentando controlar o que não presta. Só fizemos valorizar e nutrir o crescimento dessas coisas. Ficamos tão preocupados com defesas que deixamos de nos olhar, respeitar e desenvolver.
Pequenas atitudes no dia a dia podem fazer toda a diferença. Exemplos: * Fila de banco – só espere o tempo determinado pela lei. Depois, denuncie. *Médicos – Não aceite a idéia que só porque você tem plano, deve ir a 2 ou 3... Para se sentir segura. Ache um e cobre uma postura ética dele. *Não permita que seu filho no primeiro dia de faculdade aceite o trote que o faça pedir dinheiro na rua. Ninguém deve achar natural pedir esmolas. * No seu prédio – Busque levar uma nova qualidade para as reuniões de condomínio. Lembre-se que seu vizinho é a pessoa que vai estar mais próxima na hora da emergência, etc.
Se colocarmos as pessoas em primeiro lugar, resgataremos a função verdadeira da sociedade e do governo. Temos que lembrar que estes são empregados do povo, que tem como dever proteger os direitos dos cidadãos. E como empregados devem ser cobrados, direcionados, e se for necessário, substituídos.
Trabalho com pessoas há anos. Estudo constantemente as pessoas. E SOU COMPLETAMENTE CONTRA A IDÉIA QUE O SER HUMANO É MAU. A maldade nasce do esquecimento de nossa humanidade. A violência nasce do desrespeito a nossa dignidade como ser.
Está na hora de se lembrar do que somos. Está na hora de percebermos que ou o mundo é bom para todos ou jamais será bom para alguém. E que estamos todos conectados. Se aceitarmos um governo e sociedade desprezível, não teremos como sobreviver e acabaremos nos tornando aquilo que tememos; um “ser humano” capaz de fazer o mau e destruir tudo que está a sua frente.
Somos maiores e melhores do que isso. Merecemos mais.
Que o pequeno João seja o último lembrete da existência do quanto estamos adormecidos. E que ele se torne o marco de uma nova época.
Aos pais do João desejo força. Que a perda seja transformada em esperança. E que a inocência roubada bruscamente se transforme em luz. Muita luz! Para vocês e para todos nós!.

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